Como as Grandes Navegações moldaram o Venture Capital
Gabriel Akel Abrahão
1/3/20255 min read


Um olhar curioso sobre a origem do capital de risco
Quando pensamos em Venture Capital (VC), imaginamos startups modernas, tecnologia disruptiva e investidores visionários apostando em ideias que transformarão o mundo. Mas você sabia que as origens do Venture Capital podem ser encontradas nas Grandes Navegações do século XVI? Bem é verdade que não há textos que comprovem essa ligação direta, mas a história é fascinante e no mínimo, curiosa. Ela mostra como o espírito empreendedor e a inovação caminham lado a lado há séculos.
O Início: As Grandes Navegações e os Primeiros Investidores de Risco
Durante os séculos XV e XVI, Portugal e outros países europeus lançaram-se às Grandes Navegações, um período que mudou para sempre a compreensão que se tinha do mundo. Os navegadores eram, essencialmente, os empreendedores daquela época, e os armadores (ricos investidores que financiavam as expedições) eram os primeiros Venture Capitalistas.
Como no Venture Capital moderno, esses armadores apostavam em viagens de risco extremo, que poderiam resultar em grandes lucros ou em perdas totais. O capital era investido na construção de navios, no abastecimento com mercadorias como especiarias, ouro e prata, e em armas para autodefesa. Quando um navio partia em uma expedição, havia três resultados possíveis:
O navio afundava: Nesse caso, tudo estava perdido. Uma perda completa, similar ao que acontece quando uma startup falha e todo o capital investido é perdido.
Expedição bem-sucedida: O navio chegava ao destino, as mercadorias eram vendidas, e os lucros eram divididos. Essa seria uma "saída bem-sucedida", equivalente a uma startup que atinge um exit rentável.
Roubo ou desvio: O navio poderia ser atacado por piratas ou a tripulação poderia se rebelar. Isso representava uma saída fracassada. É como uma empresa acaba fechando as portas por conflito entre sócios ou que perde um talento importante, o que acaba por comprometer o resultado financeiro da empresa e, consequentemente, dos investidores.
Essas dinâmicas mostram como o Venture Capital é, na verdade, um modelo de negócio muito mais antigo do que imaginamos, com raízes em um passado onde o risco e a recompensa eram igualmente imprevisíveis.
Inovação, Seguros e Gestão de Risco
Com o aumento das expedições marítimas, surgiram também novas soluções para lidar com os riscos envolvidos. Dessa necessidade, nasceram os primeiros contratos de seguro. Esses contratos previam a perda total do empréstimo caso o navio naufragasse e uma cobrança maior caso a viagem fosse bem-sucedida. Isso permitiu que o capital continuasse fluindo, mesmo diante de tantas incertezas.
Esses primeiros seguros marítimos foram a base para o desenvolvimento da gestão de risco, que hoje é uma das peças fundamentais no setor financeiro e no Venture Capital moderno. Assim como nos seguros dos navios das Grandes Navegações, os VCs atuais mitigam seus riscos investindo em um portfólio diversificado de startups. A ideia é que algumas startups se destaquem tanto que seus resultados compensem as perdas das outras que falharem.


Carry Interest: A Origem do Termo
Outro ponto curioso é a origem do termo "carry interest", utilizado até hoje no mercado de Venture Capital para se referir à parte dos lucros obtidos que é dividida entre os gestores do fundo. Na época das Grandes Navegações, os capitães e armadores cobravam uma taxa de cerca de 20% sobre o valor das mercadorias carregadas nos navios. Este "carry" representava a recompensa pelo risco e pela responsabilidade envolvidos na expedição — um conceito que permanece vivo no mercado de investimentos de risco até hoje.
Venture Capital e a Indústria de Pesca de Baleias
Além das Grandes Navegações, outro setor interessante que ajudou a moldar o Venture Capital como o conhecemos hoje foi a indústria de pesca de baleias. Assim como nas explorações marítimas, a pesca de baleias era uma atividade de altíssimo risco, onde os investidores precisavam bancar os custos dos navios, tripulação e equipamentos, na esperança de grandes recompensas. A operação era cara e arriscada, e os lucros vinham de poucos “sucessos”, enquanto muitas expedições falhavam — um padrão que também observamos no Venture Capital.
Uma boa forma de entender essa dinâmica é lendo o clássico "Moby Dick". O livro de Herman Melville não só é uma história empolgante sobre baleias, mas também uma lição sobre os riscos e as recompensas envolvidas no capital de risco, e como cada membro da tripulação — ou startup — tem papel essencial no resultado final.
O Caso Verve Capital: Venture Capital Brasileiro
Saltando para os dias atuais, podemos ver como esses conceitos de risco e recompensa se aplicam aos fundos de Venture Capital contemporâneos, como o caso da Verve Capital. Fundada com um foco agnóstico, a Verve se propôs a investir em startups ao redor do mundo. No entanto, ao longo do tempo, a gestora percebeu que fazia muito mais sentido concentrar seus investimentos no Brasil, onde tinha conhecimento profundo do mercado e maior capacidade de influenciar o sucesso das empresas investidas.
Com seu segundo fundo, a Verve busca captar US$ 10 milhões para investir em startups brasileiras, mantendo um pequeno percentual para oportunidades na América Latina. Assim como os armadores das Grandes Navegações, a Verve busca apostar em expedições — ou startups — que tenham potencial de navegar por mares turbulentos e retornar com grandes riquezas.
Os investimentos serão feitos em startups em estágio inicial, com cheques de US$ 200 mil a US$ 500 mil. A proposta é ser um micro VC, com retornos mais modestos e um período de investimento mais curto, semelhante àqueles investidores que financiavam viagens menores, mas frequentes, durante o auge das expedições marítimas.
Venture Capital: Aventura, Risco e Recompensa
Assim como nos tempos das Grandes Navegações, o Venture Capital de hoje depende da coragem de investidores dispostos a apostar em ideias visionárias e na capacidade dos empreendedores de superar desafios imensos. A história nos ensina que tanto ontem quanto hoje, a recompensa só é possível para aqueles que têm "skin in the game" — aqueles que se colocam em risco e se comprometem totalmente com a jornada.
O Venture Capital é, portanto, uma continuação da história de exploração, inovação e coragem. E, assim como os capitães e armadores de antigamente, os investidores de hoje estão em busca do próximo grande "novo mundo", seja ele um novo mercado, um novo produto ou uma solução tecnológica que poderá mudar a forma como vivemos.
Espero que possamos continuar aprendendo com o passado para navegar melhor os mares do futuro. Se as Grandes Navegações nos ensinaram algo, é que o risco faz parte da jornada e que, muitas vezes, os maiores tesouros estão além do horizonte que podemos ver. Quem está disposto a zarpar? ⛵️


Referências
FRANCO, Marcelo. O início do Venture Capital Disponível em: https://marcelo-franco.medium.com/o-in%C3%ADcio-do-venture-capital-40b301cef427 Acesso em: 14/11/2024
TONDO, Stephanie. Verve: fundo 2 vai investir US$ 10M em startups "made in Brazil" https://startups.com.br/dealflow/verve-fundo-2-vai-investir-us-10m-em-startups-made-in-brazil/ Acesso em: 14/11/2024
O que é Venture Capital e como captar recursos com fundos de investimento. Disponível em: https://www.startuphero.com.br/o-que-e-venture-capital/ Acesso em: 14/11/2024
